A ópera do boi
Em junho, Parintins se pinta de vermelho e azul para o segundo maior festival do país
Todos os anos, os jurados escolhem a mais suntuosa apresentação do boi-bumbá no Festival de Parintins, a 420 quilômetros de Manaus. Para avaliar o desempenho das agremia- ções, eles só usam canetas de cor verde. Não po- dem usar o vermelho e o azul, reservados apenas para colorir a farra dos bois: o Garantido e o Ca- prichoso, respectivamente. Realizada desde 1965, a apresentação ocorre no último fim de semana de junho e já se transformou no segundo maior festejo popular do Brasil, atrás apenas do carnaval.
A disputa da folia de Parintins, no entanto, é muito mais acirrada que aquela das escolas de samba cariocas e paulistas. De um lado está o Boi Caprichoso, vencedor do festival por 19 vezes, que ostenta uma estrela em sua testa. A origem do boi azul e branco é controversa. Uns afirmam que ele foi criado em 1913 por três irmãos cearenses do Crato para pagar uma promessa. Outra corrente diz que surgiu em meados da década de 20, como uma dis- sidência do Boi Galante de Parintins.
Do outro lado está o Garantido, com 27 títulos, sempre pronto para o desafio. Fundado em 1913, o boi vermelho, simbolizado por um coração, começou a ir às ruas em cumprimento de uma promessa fei- ta por Lindolfo Monteverde, que adoeceu durante o serviço militar e pediu a São João que lhe devolves- se a saúde.
Como o carnaval, a festa amazonense é repleta de cores, tem enredo elaborado e até um local pró- prio para os desfiles: o Centro Cultural e Esportivo Amazonino Mendes, o popular Bumbódromo. Inaugu- rado em 1988, o espaço a céu aberto acomoda 35 mil espectadores e tem o formato de uma cabeça de boi estilizada. Patrocinadores pleiteiam cada centímetro do Bumbódromo para anunciar seus produtos, fazendo do festival um evento cada vez mais lucrativo.
A preparação para o embate entre os bois co- meça três meses antes, com festas e quermesses nos "currais", complexos com quadras, palcos e ca- marotes construídos pelo governo do Amazonas. Os garantidos se concentram na área de cima da Ilha de Tupinambarana, no Rio Amazonas, onde está a cidade de Parintins. Já os caprichosos ficam do ou- tro lado, na área de baixo. Nesses locais, produzem alegorias, fantasias, planejam efeitos especiais e preparam outros detalhes do desfile, que segue a dinâmica de uma ópera.
Cada boi festeja por três horas em três dias no Bumbódromo, em ordem definida por sorteio. O apre- sentador cumprimenta a plateia e a toada começa a incendiar a arena. As "galeras", como são chama- das as torcidas, exibem coreografias ensaiadas para acompanhar a famosa lenda do bumba-meu-boi. Grávida e com desejo de comer língua bovina, Mãe Catirina faz o marido, Pai Francisco, matar o animal preferido do patrão. Ele é descoberto, e um padre e um pajé são chamados para ressuscitar o animal, que se levanta e começa a dançar.
Apesar da rivalidade acirrada, não faltam res- peito e cordialidade. Uma torcida não pronuncia o nome do boi adversário, mas permanece em silêncio enquanto ele se apresenta. As galeras podem até lutar com todo o empenho pelo título de Parintins, mas ninguém quer ofuscar o brilho do espetáculo.




