De vento em popa: grandes eventos agitam o mercado
Investimentos em infra estrutura aquecem a economia e devem alavancar os números de vários segmentos em 2012. Para os fabricantes de máquinas, as expectativas são promissoras
Exploração do pré-sal, Copa do Mundo de 2014, Olimpíada de 2016, usinas hidrelétricas de grande porte em andamento e todas as obras e atividades atreladas a esse pacote de investimentos em infraestrutura. A esses ingredientes, junte o setor imobiliário aquecido e prepare-se: mesmo com o fantasma da crise, o ano de 2012, de acordo com os especialistas, deve ser promissor – especialmente para o setor de máquinas e equipamentos.
Um estudo da Associação Brasileira de Tecnologia para Equipamentos e Manutenção (Sobratema) apontou em 2010 um crescimento de 70,5% na comercialização de máquinas no mercado interno: foram vendidas 70,53 mil unidades contra 41,36 mil em 2009. Até o fim de 2011, o número chegou a aproximadamente 77,8 mil, com novo aumento em relação ao ano passado. De acordo com a associação, as vendas devem ficar em torno de 119 mil unidades até 2015.
Até o setor de locação, que em 2011 apresentou 40% de ociosidade, conforme a Associação Paulista dos Empreiteiros e Locadores de Máquinas de Terraplanagem e Ar Comprimido (Apelmat), acredita em 100% de ocupação dos equipamentos para este ano. “Alguns empresários já estão até adquirindo novos ativos por conta de obras como o Rodoanel Trecho Norte, a expansão do metrô e dos aeroportos, como Cumbica”, afirma o presidente da entidade, Manuel da Cruz Alcaide.
Trilha de Oportunidades
Até 2016, há a previsão de investimento de 1,48 trilhão de reais nas 12.265 obras de infra-estrutura, já em andamento ou em projeto, espalhadas pelo país, segundo pesquisa realizada pela CriActive e Êxito e apresentada em outubro de 2011 no 2o Sobratema Fórum – Brasil Infra estrutura – Cidades. De acordo com a engenheira Cristina Della Penna, realizadora do estudo idealizado pela Sobratema, houve um crescimento de 28,5% no número de obras e 21,3% em investimentos em relação à pesquisa de 2010, que mostrava 9,55 mil obras e estimativa de investimento de 1,22 trilhão de reais.
Segundo a engenheira, ainda assim o Brasil investe pouco em infra estrutura. “De acordo com um estudo do BNDES, caso o Brasil quisesse alcançar, nos próximos 20 anos, os padrões de países industrializados do Leste Asiático, a taxa requerida seria de 5% a 7% do PIB”, explica. “De 2006 a 2009, foi de 2,1%.”
O estudo avaliou dez setores e, segundo a pesquisadora, obras de transporte ficarão com 343 bilhões de reais (a maior obra é o trem-bala, com verba prevista de 34 bilhões de reais). Para o setor de energia serão 182 bilhões de reais; saneamento, 85,4 bilhões; seguido pela indústria, 82,7 bilhões; e hotéis e resorts, 51 bilhões. Para a habitação, estão previstos 17 bilhões de reais. As obras de infra estrutura esportiva (incluem as arenas para a Copa, mas não os investimento em transporte) ficarão com 14 bilhões de reais, e outros setores – como universidades, hospitais e edifícios públicos – com 14,8 bilhões, seguidos pelos shopping centers, com 9,5 bilhões.
A pesquisa também mostra que a elevação dos valores da carteira de investimentos em relação ao relatório de 2010 reflete principalmente a entrada de novos projetos no setor de óleo e gás (a partir de empresas privadas), os novos projetos de complexos portuários e a aceleração da entrada de projetos vinculados aos eventos esportivos e novos projetos urbanos (que se refletem principalmente na dimensão transportes).
Combustíveis
“O segmento de combustíveis abarca o maior volume de recursos, com previsão de 679 bilhões de reais, em 300 obras, no período até 2016”, explica Cristina. O levantamento identificou que apenas as 30 maiores obras (21 delas da Petrobras) vão absorver 78% dos valores destinados ao item combustível. No seminário “O Pré-Sal: Mobilização da Cadeia de Fornecedores”, apresentado em outubro de 2011 no Paraná, o diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, deu uma idéia das oportunidades oferecidas com a nova exploração. Segundo ele, no caso das sondas de perfuração equipadas para trabalhar em lâminas d’água (LDA) acima de 2 mil metros, por exemplo, o número deve passar das 15 existentes em 2010 para 39 até 2013, e chegar a 65 até 2020. Os barcos de apoio e especiais, hoje em número de 287, serão 568 até 2020. As plataformas de produção semi-submersíveis (SS) e as unidades flutuantes de armazenamento e transferência (FPSO) passarão de 44 para 94 no mesmo período.
São apenas alguns exemplos de maquinário e equipamentos pesados já adquiridos ou em contratação, de acordo com o diretor da Petrobras. Mas o universo de necessidades é bem maior. “Quando se fala em pré-sal, petróleo e gás, algum empresário pode pensar que não tem o que fornecer para a Petrobrás. Pode pensar: ‘sou fornecedor de colchão. O que pré-sal tem a ver com colchões?’. Vamos precisar de milhares de colchões, torneiras, louças sanitárias, assim como de bombas, reatores, compressores, turbinas a gás, tubos especiais… Vamos precisar de uniforme, capacete, bota, luva”, argumenta o diretor.
As oportunidades, segundo Costa, dependem da integração entre a Petrobras e a cadeia de fornece- dores, com o apoio de todos os parceiros. “Precisaremos do povo brasileiro, de milhares de braços, e não apenas dos empregados da Petrobras.”
Atenta à futura demanda, a Caterpillar inaugurou a segunda fábrica brasileira, em Campo Largo/PR. A intenção é desafogar a produção na sede de Piracicaba/SP e abrir espaço na planta para fabricar máquinas voltadas ao pré-sal, como motores para embarcações que atuam na exploração de petróleo e no ramo marítimo. O investimento será de 350 milhões de reais nas duas plantas até 2013. De acordo com a empresa, já há encomendas na área de pré-sal, a maioria da Petrobras. No Paraná, serão produzidas retro escavadeiras e carregadeiras, principalmente para o mercado da construção.
Mineração
Outro setor em plena expansão é a produção mineral, que já havia comemorado um recorde em 2010 com 39 bilhões de dólares (sem incluir petróleo e gás) e deve bater essa marca em 2011. “Saímos de apenas 8 bilhões de dólares em 2001, e chega mos a cerca de 50 bilhões no ano passado”, afirma o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Paulo Camillo Vargas Penna. E pode crescer mais 10% ao ano em 2012 e 2013. “Mesmo com um cenário de crise na Europa e nos Estados Unidos que exige cautela, a mineração vive um momento de produção apertada e demanda crescente.”
Penna explica que a estimativa de investimentos no setor mineral entre 2011 e 2015 é da ordem de 68,5 bilhões de dólares, mais um recorde. O setor registra ainda um crescimento na produção de toda a cadeia. No caso do minério de ferro, por exemplo, a produção deve saltar de 372 milhões de toneladas em 2010 para 771,5 milhões em 2015. Já nos agregados a variação será de 516 milhões de toneladas em 2010 para 672,7 milhões em 2015.
Apesar dos resultados, Penna critica os gargalos que ainda prejudicam o setor. “A altíssima carga tributária, as faltas de mão de obra qualificada e infra estrutura de transporte são os principais problemas a serem superados.” Entraves também citados pelo presidente executivo da Associação Nacional das Entidades de Produtores de Agregados para Construção Civil (Anepac), Fernando Mendes Valverde. “Temos recursos abundantes, qualidade das rochas, alta demanda reprimida e insumos minerais de difícil substituição, mas esbarramos no excesso de carga tributária, dependência de investimentos públicos, deficiência na aplicação das normas técnicas, reduzida qualificação de pessoal e insumos de setores oligopolizados e controlados”, avalia. Mas a expectativa é de grande crescimento. “A produção de agregados, de 631 milhões de tonela das em 2010, deve ultrapassar 1 bilhão em 2012”, garante Valverde. Os investimentos também vão subir bastante. “Passaremos de 1 bilhão de reais de investimentos em 2011 para 1,488 bilhão em 2015.”
Energia
De acordo com a pesquisa “Principais Investimentos em Infraestrutura no Brasil até 2016”, a área de energia deve receber 182 bilhões de reais, em 750 obras. Uma das mais importantes é a Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, com capacidade instalada de 11.233,1 MW, que demandará investimentos estimados em 25 bilhões de reais. Uma mostra do que essa construção significa é a aquisição de aproximadamente 700 máquinas pesadas para Belo Monte em 2011. Outra hidrelétrica, a de Santo Antônio, no Rio Madeira, já contratou 124 máquinas e 229 caminhões.
Especialistas apostam que as encomendas crescerão bastante. “São obras necessárias. A ordem de crescimento da demanda por energia é de 5% ao ano. A cada 1617 anos é preciso dobrar a capacidade de geração”, afirma o assessor de energia elétrica da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Fernando Umbria. “O planejamento deve ser cuidadoso para não se correr o risco de não atender a essa necessidade.” De acordo com Umbria, todos os segmentos do setor elétrico estão fortemente demandados, em especial o da geração. “Mas a expectativa é que, nos próximos cinco anos, não tenhamos contratempos entre a oferta e a demanda.”
Umbria lembra ainda a forte vocação das hidrelétricas no Brasil, responsáveis por cerca de 74% da matriz de energia. “Mas não é só isso: há alternativas a explorar, como a energia solar e a eólica, que precisam melhorar a relação de qualidade e preço”, considera. “As termelétricas podem contribuir bastante, porém, há pouca previsão de investimentos nesse tipo de geração.” Ele destaca, também, o custo da energia no Brasil, bastante elevado. “É a quarta tarifa mais cara do mundo no setor industrial.”




