Bom momento impulsiona a suinocultura
Criadores brasileiros estão modernizando suas granjas para aumentar a produção de carne de porco
Asuinocultura brasileira passa por um momento de forte euforia. Com o aumento do poder aquisitivo da população, a procura pela carne de porco registrou um crescimento significativo no ano passado. Para se ter idéia, em 2004 foram abatidos 25 milhões de suínos. Em 2010, o número de abates foi de 34 milhões, que geraram 3,2 milhões de toneladas de carne. Ou seja, em seis anos, houve um aumento de 36% na produção. Se considerarmos a União Europeia como um único país, o Brasil figura hoje como o quarto maior produtor mundial em um ranking composto por China, União Europeia e Estados Unidos.
Com o bom momento, muitos criadores estão investindo no aumento de sua produção, modernizando equipamentos e instalações. Para isso, é preciso estar atento às novas tecnologias e oportunidades de negócio – como a utilização de máquinas para o transporte de ração para os animais – que facilitam as rotinas de trabalho, economizando tempo e dinheiro.
A Revista ELO entrevistou o diretor executivo da Associação Brasileira de Criadores de Suínos, Fabiano José Coser, que falou sobre a atual situação do merca- do e explicou os procedimentos da criação de suínos.
Elo: Em que consiste a suinocultura?
Coser: A suinocultura é uma atividade para produção de proteína de origem animal. A carne suína é a mais consumida no mundo, e muita gente des- conhece isso. Em segundo vem a carne de aves e, em terceiro, a bovina. No Brasil, essa situação é um pouco diferente. Até pouco tempo atrás, a bovina dominava, mas a partir de 2009 a carne de aves já é a mais consumida no país, seguida pela bovina e, por último, a suína.
Elo: Qual a capacidade de reprodução dos animais?
Coser: A matriz suína tem uma grande capacidade de produção de carne. Atualmente, uma única porca é capaz de ter em torno de 27 a 28 filhotes por ano. Se pensarmos que cada leitãozinho se transformará em um animal de 100 quilos, serão cerca de 2,7 mil quilos de carne por ano da mesma origem. Não é à toa que se trata da carne mais consumida no mundo, até mesmo por essa capacidade de produção. É uma máquina de transformar proteína vegetal em uma proteína animal de alta qualidade. O índice de aproveitamento também é alto. Quase todos os cortes do porco são aproveitados, além de existir um mercado forte para carcaça e miúdos.
Elo: Como se situa a produção brasileira no mercado mundial?
Coser: Ela vem se destacando muito, principal- mente a partir da década de 90, com o retorno do Brasil ao mercado internacional de carne suína. O país é hoje o quarto maior produtor mundial. Atrás apenas da China, União Europeia e Estados Unidos. Aqui, estamos considerando a União Euro- peia como um bloco único. Em 2010, a produção brasileira ficou em torno de 34 milhões de suínos abatidos. São cerca de 3,2 milhões de toneladas de carne. A criação de animais se concentra principalmente nos Estados da Regiões Sul e Sudeste. Santa Catarina é o maior produtor.
Elo: Qual é a expectativa do setor para 2011?
Coser: Nossa expectativa é continuar com o que foi feito em 2010. Certamente, não teremos nenhum mercado em crise e estamos passando por uma boa fase liderada principalmente pelo consumo doméstico de carne suína, que melhorou demais. Na minha opinião, isso se deve ao aumento do poder aquisitivo da população em geral.
Elo: Existe interesse no mercado internacional?
Coser: Nossa grande aposta ainda é o mercado doméstico, uma vez que o internacional é bastante disputado e tem concorrentes de peso, como os Estados Unidos e a União Europeia. A expectativa é que até 2020 o consumo de carne no Brasil aumente 20 quilos per capita. Hoje, a média per capita é de 97 quilos por ano, somando todas as proteínas. Vamos trabalhar para que a suinocultura responda por uma boa fatia desse mercado.
Elo: A imagem de que carne suína pode fazer mal à saúde atrapalha esse crescimento?
Coser: Sim. Temos uma grande campanha chama- da “Um novo olhar sobre a carne suína”, que visa mostrar ao consumidor que ele está desinformado ao desconhecer que o alimento é o mais consumido no mundo e que ela não é tão gorda quanto pensam. Além do mais, a carne é muito saborosa. Quem come sem medo vira fã.
Elo: A suinocultura enfrenta outro empecilho?
Coser: Outro problema é o preparo da carne para a venda. Ainda hoje, em muitos supermercados você não encontra na seção de suínos todos os cortes disponíveis praticados na carne bovina, como picanha, filé mignon, carne moída etc.
Elo: A produção brasileira é dependente de tecnologia?
Coser: A suinocultura está bastante dependente da tecnologia em todos os aspectos, como nutrição, sanidade e meio ambiente. Atualmente, a maioria das granjas é mecanizada em termos de distribuição de alimentos. Para montar uma granja, é necessário ter licença ambiental e projetar lagoas para a retenção de dejetos. Também existem inúmeras granjas com biodigestores, que transformam o dejeto suíno em energia, ou seja, biogás. Essas granjas são como pequenas centrais de energia. Em muitos casos, elas geram eletricidade para toda a propriedade, além de sobrar o biofertilizante para usar na lavoura.
Elo: Quais os setores de uma granja?
Coser: Uma granja básica tem o setor de reprodução, que é dividido em gestação e maternidade, creche, recria e terminação. Depois de passar por todos esses setores, o animal é abatido com tempo de vida entre cem e 150 dias.
Elo: Então são apenas dois abates por ano?
Coser: Não, porque é uma linha de produção, ou seja, sempre teremos animais em todos os setores da granja. Para garantir isso, o criador deve ter uma sequência de partos semanais. Toda semana, o produtor cobre, faz o parto, desmama e vende uma quantidade de animais.
Elo: Como deve ser a organização para pôr isso em prática?
Coser: Hoje existe um sistema denominado all in/ all out. Por exemplo: de uma determinada cria, nasceram 250 leitões. Depois de certo tempo, todos são desmamados no mesmo dia e formam um lote que vai para a creche. De lá também saem no mesmo dia e assim seguem até a terminação. Quando uma turma sai, todas as instalações são limpas para entrar outra. Hoje, as granjas têm normas sérias de anticontaminação. Para uma pessoa entrar numa granja, é necessário tomar banho e não ter tido contato com nenhum outro suíno nas últimas 72 horas. Vale citar cuidados sanitários como vacinação, zootecnias e manejo.
Elo: Os pequenos produtores também seguem essas regras?
Coser: Sem dúvida. O cuidado é grande porque o animal é o principal ativo do produtor. É a mesma situação de alguém que compra uma máquina e não faz a manutenção básica dela, como trocar o óleo.
Elo: Como é feita a alimentação dos animais?
Coser: A ração é baseada numa mistura de grãos, sendo o milho seu principal ingrediente energético e a soja o proteico, além das vitaminas.
Elo: O próprio produtor compra essas rações?
Coser: Ao lado da maioria das granjas existe uma fábrica de ração, que representa cerca de 75% do custo da criação de porcos. Em alguns casos, uma mesma fábrica abastece três ou quatro granjas ao seu redor.
Elo: Então são necessários equipamentos para transportar esses grãos?
Coser: Todas as grandes granjas dependem de equipamentos para seu funcionamento. Para transportar esses alimentos usam-se tratores, carregadeiras etc. Fazer isso somente com funcionários é inviável. São necessárias máquinas grandes, que possam levar 40 toneladas por vez.




