Legado do esporte
Jogos Olímpicos e Copa do Mundo são excelentes oportunidades para fazer negócio e desenvolver as cidades
Para cada dólar investido diretamente nos Jogos Olímpicos, outros 3,26 serão injetados na economia brasileira. A realização do evento proporcionará uma movimentação de 51,1 bilhões de dólares entre 2009 e 2027. Essas projeções fazem parte de um estudo encomendado pelo Ministério do Esporte à Fundação Instituto de Administração (FIA) e à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), e indicam o impacto positivo e prolongado dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016. Não só no Rio de Janeiro, mas em todo o país.
De acordo com o estudo, metade dos benefícios econômicos será observada no Estado do Rio de Janeiro, e a outra metade se multiplicará pelo Brasil. Entre os setores mais favorecidos, a construção civil tem destaque, além de serviços imobiliários, petróleo e gás, informação, transporte e armazenagem. E os benefícios não se restringem ao período de preparação dos Jogos. O pós-evento, entre 2017 e 2027, terá resultados significativos com a visibilidade do país no cenário internacional e a estrutura mais bem preparada para receber turistas e para fazer negócios.
Apesar de o estudo ser focado nos Jogos Olímpicos de 2016, o secretário nacional de Esporte de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Ricardo Leyser, que coordenou o levantamento, acredita que os impactos da Copa do Mundo seguirão a mesma lógica. Responsável pelas ações do município de São Paulo na organização do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, Leyser agora participa ativamente das ações do governo brasileiro na gestão dos Jogos Olímpicos. A Revista ELO conversou com o secretário sobre o legado positivo dos eventos esportivos para o Brasil.
ELO: Quais os impactos de eventos como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo para o Brasil?
Ricardo: O impacto é amplo em vários setores.
Primeiro, porque afeta a autoestima da população, dá mais visibilidade ao país e ajuda a desenvolver o esporte. No âmbito econômico, temos outros pontos importantes. Por serem eventos com data marcada e com um nível de qualidade e eficiência muito alto, obrigam o país a fazer uma preparação exemplar. Saímos da rotina comum, de prazos muitas vezes não cumpridos, para fazer um planejamento integrado, com controle rígido de prazo e orçamento. Mobiliza-se no tempo e no espaço uma série de investimentos que têm de atender a um nível de qualidade superior àquele do dia a dia da administração. Além disso, são eventos com uma participação da iniciativa privada.
ELO: De que forma ocorre essa participação?
Ricardo: Existe uma série de fornecedores que atuam em torno desses investimentos. Muitas empresas abrem escritórios no Brasil para prestar serviços durante os Jogos. Patrocinadores vêm ao país com atividades para fortalecer suas marcas. A presença de jornais e televisões traz uma visibilidade que não tem preço. Isso se reflete no turismo e no ambiente de negócios.
ELO: Essa visibilidade também é boa para as empresas?
Ricardo: Sim. O certificado de que você realizou serviços para os Jogos Olímpicos ou para a Copa do Mundo é como uma norma ISO. Ao participar, as empresas mostram que têm capacidade para entrar nessa indústria e atuar em outras edições. A certificação permite competir nesse mercado: a cada quatro anos temos Jogos Olímpicos de Inverno, Jogos Olímpicos de Verão e a Copa da Fifa, entre outros eventos.
ELO: Quais setores têm mais oportunidades?
Ricardo: É claro que a construção civil tem mais oportunidades num primeiro momento. Mas todos os setores ligados a serviços de hotelaria, restaurante, hospedagem, o setor de comunicação, de organização de eventos e de serviços de segurança também crescerão. Muitas pessoas virão para o Brasil e precisarão dormir, se alimentar, se locomover, por exemplo. Outro setor que terá impacto é o de petróleo e gás. Isso porque há mais consumo de combustível. Os 12 estádios da Copa terão cerca de 600 mil assentos, uma oportunidade, nesse caso, para as fábricas de plástico. Será um impacto enorme.
ELO: Qual será a abrangência desse impacto?
Ricardo: Fizemos um estudo específico no caso da Olimpíada. Grosso modo, metade do impacto será no Estado e a outra metade no restante do Brasil. Poderíamos estimar algo parecido para as cidades-sede da Copa do Mundo. Isso ocorre porque muitos produtos vêm da indústria de fora do Estado: o aço vem de um lugar, os produtos agrícolas vêm de outro. O Rio de Janeiro, por exemplo, não é um Estado que produz todos os alimentos que consome. Então, o evento tem um impacto na agricultura de Minas Gerais e de São Paulo. Nem sempre é algo significativo, mas, de uma forma ou de outra, isso se espalha pelo país. Em alguns casos, o impacto pode até ser maior fora do Estado onde o evento é realizado.
ELO: Por quanto tempo poderemos observar o legado dos eventos na economia?
Ricardo: Segundo o nosso estudo, os impactos ainda serão importantes entre 2017 e 2027. Cito o caso de Barcelona, que, dez anos depois dos Jogos, recebia mais que o dobro do número de turistas. Esse é um dos grandes efeitos de se aumentar a visibilidade internacional. Consequentemente, a estrutura passa a estar disponível, o turismo se desenvolve, há aumento de emprego e as pessoas consomem mais.
ELO: Você citou o caso de Barcelona. Que lições essa e outras experiências de sucesso ensinam para o Brasil?
Ricardo: O foco na cidade. As obras devem servir ao país e à cidade, e não apenas ao evento. No Rio, temos a questão da região portuária, que está sendo recuperada para receber navios de cruzeiro, a vila de mídia (hospedagem para jornalistas) e o centro de mídia (local de operações). A revitalização do porto seria realizada algum dia, mas com os Jogos Olímpicos ela ganhou uma data. Se se fizesse tudo isso na Barra, talvez não fosse tão bom para a cidade. É isso que Barcelona ensinou: toda decisão deve ser tomada em função do que vai ter uso para a cidade depois do evento.
ELO: O que esperar em termos de infraestrutura para o Rio e para as cidades-sede da Copa?
Ricardo: Primeiro, teremos programas de mobilidade urbana. Só o Rio de Janeiro vai ter quatro novos corredores de ônibus. Junto com isso, teremos melhoria da condição de segurança. Ela já melhorou no Rio com os Jogos Pan-Americanos, quando foi feito um investimento de 600 milhões de reais pelo governo federal. Não só o ambiente social passa a ser mais seguro, como também o ambiente de negócios. Tudo isso conta.
ELO: Qual será o legado desses eventos para a estrutura esportiva do país?
Ricardo: Passa-se a entrar num mercado internacional, pois um evento puxa outro. Começar a ter infraestrutura ajuda a realizar outras competições. Com os equipamentos dos Jogos Pan-Americanos, foram feitos os Jogos Mundiais Militares. Coisas foram construídas, mas já tínhamos uma estrutura disponível. Cada vez mais, isso vai sendo incrementado. Já temos mais da metade da estrutura para os Jogos Olímpicos.




